Entrevista Maternar

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A atriz Carolinie Figueiredo, 25, teve o seu filho caçula em casa em um parto domiciliar não planejado. Ela conta que a ideia era que Theo, hoje com cinco meses, nascesse de parto normal em um hospital assim como foi com a irmã, Bruna Luz, de 2 anos. Não deu tempo. O menino – para a realização dos pais – nasceu no banheiro da casa da atriz, no Rio.

Carolinie conta que pretendia ir até a maternidade, mas que também tinha um desejo de ter o filho em casa, principalmente, depois de não ter gostado da experiência que teve no parto da primeira filha. “Acho que inconscientemente acabei tardando minha ida para o hospital. Em casa pude ter a liberdade real de fazer o que meu corpo pedia. Tirar a roupa, engatinhar, gritar, andar pelo quintal. A intimidade da minha casa, meu cheiro, minhas músicas, incenso e velas também me trouxeram mais confiança e entrega”, conta a atriz que é casada com o ator e cineasta Guga Coelho.

A filha mais velha acompanhou todo o trabalho de parto da mãe e viu o irmão logo que ele nasceu. “Foi muito mágico! Entrei pra tomar um banho porque ia pra maternidade e depois de dois urros e de acocorar [ficar de cócoras] meu bebê nasceu! Foi lindo!”, conta Carolinie, que estava acompanhada do marido, da filha, de uma enfermeira obstétrica e de sua professora de ioga.

Carolinie diz que no dia do nascimento do filho acordou com contrações e passou o dia com elas bem ritmadas. Mas, o trabalho de parto não engrenou. “A enfermeira foi embora e passei o dia com contrações. Fui para a praia, caminhei, mergulhei, arrumei as malas da maternidade pois ainda não tinha arrumado e no fim da tarde as contrações engrenaram de verdade”, diz Carolinie.

PRIMEIRO PARTO

Sobre o primeiro parto, a atriz diz que também foi natural pois não tomou anestesia e ficou na banheira para aliviar as contrações até ter oito centímetros de dilatação. “Mas, com o tempo descobri que vários toques e interferências que não eram necessárias foram feitas, e foi a parte que realmente doeu. Também não tive acesso à comida ou água o que me deixou com menos força pra parir. Também não pude escolher uma posição mais confortável, me disseram que deveria ficar sentada numa cadeira apesar do meu corpo pedir movimento, acocoramento. Essa vontade não foi respeitada”, lamenta. No parto humanizado, a mulher pode escolher em quem posição prefere ficar, se prefere ou não se alimentar durante o trabalho de parto e os exames de toque são muito restritos.

Após se informar mais sobre parto normal, ela descobriu que uma manobra que fizeram durante o trabalho de parto e que a machucou poderiam ter sido evitados. “Foi falta de preparo da equipe para o parto natural porque ela também era desnecessária, bastava que me permitissem levantar da cadeira. Sinto que a falta de uma equipe humanizada atrapalhou meu processo expulsivo. A fala da pediatra que acompanhou o parto também era agressiva, mesmo ao tentar me “motivar”, ela me deixava ainda mais travada e mais distante da liberdade de ouvir meu corpo e saber parir”, lamenta.

Para Carolinie, a questão da violência obstétrica é assustadora pois ela pode ser sutil. “Muitas mulheres sofrem e não sabem. Às vezes, um tratamento mais áspero, menos encorajador nesse momento muda todo o quadro do parto”, comenta a jovem mãe que virou uma ativista em defesa do parto humanizado.

A mãe de Bruna Luz e Theo conta que com a experiência do primeiro parto, o puerpério foi devastador. “Só chorava, tive dificuldade de fundir de imediato com o bebê, e a amamentação demorou pra ser prazerosa. Tinha ajuda do meu marido e da minha mãe mas eu ficava exausta, acho que tive depressão pós-parto e não sabia”, conta.

Já no segundo pós-parto, Carolinie conta que as coisas fluíram naturalmente. “Cuidei do bebê sozinha pois meu marido ficou centrado na mais velha. Estava motivada, com energia, independente e segura de mim como mãe. Minha recuperação foi fantástica”, conta.

ATIVISTA

Após as experiências dos partos, a atriz virou uma engajadora do parto humanizado. “Os nascimentos são vistos com mais individualidade e respeito ao tempo do bebê e da mãe. A mãe é a protagonista. A sensação foi de ter descoberto um poder muito forte feminino, ancestral, transcendente maravilhoso e uma força absurda que está adormecida em todas nós! Queria que todas as mulheres tivessem a chance de parir assim”, conta.

A pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, divulgada em maio, mostrou que as brasileiras são convencidas ao longo da gestação a terem seus filhos por cesárea. O levantamento mostra que 72% das gestantes da rede pública queria parto normal quando engravidaram, mas 52% passaram pela cirurgia. Na rede particular, um terço queria parto normal, mas 89,9% acabaram em cesáreas.

“As mulheres acabam perdendo essa escolha pois são engolidas pelo sistema, informações erradas. Acredito que a luta pelo parto humanizado é uma luta de todas as mulheres pois falamos de autonomia, de poder de escolha, de informação. É um caminho sem volta ser mordida pelo bichinho da humanização. Uma luta linda”, comenta atriz que planeja fazer um curso de doula e de amamentação para tratar os assuntos com mais propriedade no blog que acaba de lançar, o Canto da Mulher que Canta.

Para ela, é preciso tratar o nascimento com uma forma mais sagrada, ou seja, menos rotineira e cirúrgica. “Todas as amigas que consegui apresentar a humanização cresceram como mulher e ganharam uma segurança nas escolhas da maternidade de maneira absurda. O tal do empoderamento feminino é bonito demais de sentir e todas nós merecemos resgatar essa força, o parto é um caminho”, afirma.

Carolinie diz ainda que algumas mulheres se sentem atingidas com a luta do parto humanizado porque não conhecem a causa. Para ela, esse estereótipo que foi criado de “menos mãe” não deve existir pois ninguém é mais ou menos mãe por via de parto ou se amamentou ou não o filho. “Acredito que maternagem é ter consciência das responsabilidades e do impacto das suas escolhas na vida daquele novo ser, é tentar ser melhor sempre. E cada uma segue avaliando seus caminhos. Essa guerrinha entre mães é um desperdício de energia quando podíamos estar todas lutando por mais casas de parto, ou a humanização do SUS, por uma licença maternidade de nove meses, ou seja, qualquer coisa que fosse de interesse comum”, avalia.

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AMAMENTAÇÃO EM LIVRE DEMANDA

Carolinie também não gosta de estereotipar outras mães quando o assunto é amamentação, mamadeiras e chupetas. Ela acha importante a mulher ter informação e buscar ajuda de especialistas caso encontre dificuldades. Com Bruna Luz ela amamentou exclusivamente até o sexto mês de vida e seguiu até pouco tempo depois do primeiro ano.

“O desmame foi natural depois que voltei a trabalhar, mas me arrependo. Acho que podia ter prolongado um pouco mais”, lamenta. Theo também mama exclusivamente e em livre demanda (sempre que ele quer). “Aprendi nesse segundo filho que amamentar em livre demanda é mais que saciar a fome do bebê. É acalentar, é acolher, saciar a necessidade de sucção”, diz.

Ela conta que Theo chupava muito o dedo. “Fui muito pressionada a colocar a chupeta, mas toda vez que via o dedo na boca, dava o peito. Fui percebendo o poder de acamá-lo, de tranquiliza-lo. Agora ele largou totalmente o dedo e me passa muita segurança saber que posso acalmar meu bebe oferecendo o peito, mesmo que não seja fome.”

Carolinie comenta que amamentar não é fácil e que chegou a pensar em desistir de amamentar exclusivamente. Ela conta que chegou a pedir indicação de leite para a pediatra do filho, mas que desistiu ao falar com o marido e outras mulheres em grupos presenciais e virtuais de pós-parto. “Eles me mostraram que eu estava cansada, ou desestimulada. Que faz parte essa crise, os questionamentos. Uma boa conversa ou noite de sono me ajudariam. E ajudaram!”, diz.

 

Entrevista para o Maternar, blog da Folha de São Paulo, jornalista GIOVANNA BALOGH arrasou nas perguntas! Muito bom poder falar de coisas importantes pra todas as mulheres!!!!

http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2014/08/12/atriz-conta-experiencia-de-ter-parto-domiciliar-surpresa/

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