Transcender o pico da crise

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Acorda gritando, chorando, revela seu lado mais sagitariano com coices, patadas e afins.

Tento acalmar no carinho, chamego… acolhimento… mesmo que seja muito difícil sequer raciocinar pela manhã. Ser mãe me fez repensar meu (genético) mau humor matinal.

Os gritos e o choro alto vão me enlouquecendo. Depois de tentar todas as técnicas de aproximação com muito afeto é a fase do subir a voz. Odeio subir a voz. Ela odeia que eu suba a voz também, então chora mais ainda.

Contar, oferecer escolhas, rezar, dar voltinha… Todas as técnicas possíveis e imagináveis pra tira-lá da crise (e pra eu não entrar na crise também).

O sangue sobe mais ainda e então é a fase de bater a cabeça na parede.

A minha mesma, claro.

As vezes também me tranco no banheiro pra chorar.

Todas as vozes do mundo surgem no meu ouvido: você mimou demais… não deu limites… é muito rígida… é muito grossa… é melosa… lembra que deixava ela demais com sua mãe? Ela nunca se recuperou!… Ela é muito apegada a você! O problema está em você ( e isso sempre).

Apesar dessas vozes se contradizerem, na hora do desespero elas parecem fazer sentido.

Recursos escassos. Você escassa, exausta, quase falida.

Sobra a voz de dentro (da maturidade?).

Você é a adulta aqui, você precisa ensinar ela a se acamar, mesmo que você não tenha aprendido (ainda).

Depois do pico de descontrole, com amor, cuidado porém firmeza, parece que o choro diminui. Aquele ataque da raiva cede lugar a uma menina solitária, cansada, que precisa de um abraço.

Entendo.

As vezes eu ainda sou a menina solitária, cansada, que precisa de um abraço.

Então que bom que ela tem a mim!

E eu perdoo tudo e abraço. Mas não foi sempre assim.

Passei a gravidez assistindo Super Nanny e acreditando em suas técnicas. Tudo balela. Todos meus conceitos de rigidez, e disciplina… todo meu despreparo disfarçado de autoritarismo foi sendo desmascarado pela minha filha que não se acalmava quando eu endurecia. E pelo meu coração que não achava certo endurecer quando percebia que ela precisava aprender a controlar seus sentimentos mais do que me obedecer. E que EU deveria ensinar isso a ela.

Me perguntava como. Como ensinar o que até hoje eu não sei? Esse lugar é onde a maternidade pega pra mim. Daí surgem minhas fragilidades, meus medos. Mas tudo isso não tem espaço. Não nesse momento.

Ja tentei educar nas crises, palestrar sobre a importância do autocontrole. Contar até mil. Ameaçar, falar do cantinho do pensamento (nome mais cool pro antigo castigo).

Desisti. Nossos corpos só pedem pra se abraçar. O dela reluta muito, mas atrás daquela carcaça de agressividade está o medo e a necessidade de amparo.

Entendo.

Atrás da minha carcaça de agressividade, estão meu medo e minha necessidade de amparo.

Uma coisa que me fez feliz na maternidade foi descobrir o poder de ouvir meu corpo, meu intuitivo (já no parto), ao invés de ouvir todas as vozes e técnicas e livros que prometem sucesso.

Mal consigo acreditar que ela está se acalmando, uma felicidade me invade por completo. Por instantes achei que ela choraria pra sempre. Não conseguia imaginar nós duas saindo daquela situação. Me fundia nas suas emoções não numa forma positiva de partilhar, mas me emaranhava no seu desespero e tomava pra mim seu descontrole.

Não!  A adulta, madura sou eu! (Por incrível que pareça). E nessa hora de abraço emocionado, completo, ainda me vem uma ultima voz maldita “por isso que ela ta assim”…

Ah… essas vozes… Que propriedade elas tem?

Cada criança é uma alma diferente, com uma demanda específica.

Acho que educar é buscar vínculos, lutar pelo real entendimento de consequência, muito mais que do que simplesmente obedecer, calar. Queria agora ter várias tecnicas pra ensinar. Mas nada na maternidade é regra. Cada criança é um ser único, com uma historia diferente, uma necessidade e um momento diferente. E eu sou cada dia uma pessoa diferente também, as vezes mais frustrada, as vezes mais paciente, mais disponível… e tudo isso influencia. 

O que me ajudou bastante foi aprender a nomear os sentimentos dela… você está cansada, está nervosa, está gritando mas sei que quer um abraço. Vou aos poucos desarmando toda fúria, conquistando um sorriso, um carinho, um olhar que se cruza.

Depois ela termina de chorar e vem pro meu colo. Em silêncio, massageando suas costas, quase num reike, mágica… não sei precisar que intuitição é essa de limpeza desse corpo e dessas emoções.

Agora é minha vez de chorar. Um choro de orgulho e desespero. De ter superado aquele momento, por ter ensinado no amor. Por não ter perdido a cabeça. A deliciosa e surpreendente sensação de que estamos aprendendo juntas.

Notas pra posteridade: “Filha, mamãe não sabe tudo. Mamãe ainda nao sabe a maioria das coisas que exige de você. Mas no espelho a gente vai se afinando. Acredito na liberdade e na criatividade. E no acolhimento. Eu estarei sempre aqui buscando sua confiança e tentando ser exemplo.

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